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Revista Veja . Edição 1631 . 12 de janeiro de 2000
Risco pesado
A obesidade, doença considerada grave, afeta milhões de brasileiros e não pára de crescer
Aida Veiga

Perdido no meio das infindáveis conversas sobre dietas, spas e calorias está um personagem que não tem nada a ver com gordurinhas localizadas ou 4 ou 5 quilos acima do que o espelho aprova e o guarda-roupa permite. Trata-se do obeso de verdade, a pessoa que pesa muito mais do que deve, não emagrece de jeito nenhum e, com isso, vai acumulando uma coleção de problemas de saúde. Muito além das considerações estéticas que tiram o sono de boa parte do planeta, obesidade é doença. Doença grave, e disseminada, que no Brasil afeta atualmente 13% das mulheres, 7% dos homens e espantosos 15% das crianças, uma multidão de cerca de 16 milhões de pessoas. É o dobro de vinte anos atrás e, mantido esse ritmo, será epidemia no país em trinta anos. Não bastassem os números alarmantes, uma informação divulgada recentemente, resultado de uma análise dos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, pelo professor Carlos Augusto Monteiro, do departamento de nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, aponta duas tendências que, cruzadas, aumentam o peso das preocupações nessa área. Na Região Sudeste, mostra o estudo, a obesidade entre as mulheres de renda alta, aquelas que lotam academias e vivem em dieta, caiu de 13% em 1989 para 8% em 1997. Em compensação, em vinte anos, cresceu de 6% para 15% entre as mulheres das famílias mais pobres – culpa, acredita-se, de uma reviravolta nos hábitos alimentares provocada pelo maior acesso a salgadinhos, sanduíches e seus calóricos companheiros. Ou seja: mais obesos à vista.

Obesidade é doença mensurável, e seu parâmetro é o índice de massa corporal, o IMC. Para calculá-lo, basta dividir o peso pela altura ao quadrado. Se der 30 ou mais, a pessoa é obesa, e está com a saúde em risco. Estudos mostram que cerca de 40% dos homens que sofrem ataques cardíacos e metade das mulheres com câncer de mama são obesos. Nos gordos demais, a propensão para a hipertensão e para o diabetes é três vezes maior. No somatório geral, eles têm, em média, seis anos a menos de vida. Vistos como sujeitos preguiçosos, sem força de vontade, os obesos têm na verdade imensa dificuldade em seguir a regra básica para emagrecer, que é comer menos e fazer mais exercício. Sacrifício para qualquer um, para o obeso comer pouco é tão difícil quanto, para um alcoólatra, parar de beber. Com uma agravante: ele precisa continuar comendo para sobreviver. "Lutamos pela prevenção da doença, porque recuperar um obeso é missão quase impossível", afirma Walmir Coutinho, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade, Abeso.

Tirando a dieta eterna e dolorosa, restam ao obeso duas opções (veja quadro ao lado). Uma é a cirurgia que corta ou interdita uma parte do estômago, fazendo com que a pessoa se sinta mal cada vez que exagera na alimentação. Outra, mais controvertida, é a introdução pela boca de uma espécie de balão que, ao ser inflado, passa a sensação de estômago cheio. A cantora Célia conhece os riscos, as opções e a tabela de calorias de cor e salteado, mas, como todo mundo que ultrapassou o limite entre gordo e obeso, não consegue dar marcha à ré. Aos 50 anos, está pesando 110 quilos e sofre de diabetes. "Como todo bom gordo, gosto de comer. Faço regime por dois, três meses, mas quem agüenta passar a vida comendo verdinhos insossos?", pergunta, suspirando. Célia tem certeza de que teria tido mais sucesso na carreira se fosse magra. Uma pesquisa do Grupo Catho, especializado em recolocação de executivos no mercado de trabalho, apontou que metade das empresas tem alguma restrição aos obesos. Nos Estados Unidos, país campeão de obesidade, onde 25% da população está muito acima do peso, já existem mais de 1 000 escritórios de advocacia especializados em arrancar indenizações de quem discrimina obesos.

Bem-sucedido e conformado – Quem é gordo mas bem-sucedido muitas vezes desiste de brigar com a balança. O humorista Jô Soares, 61 anos, 115 quilos, não se considera obeso, garante que não sofre de nenhuma doença ligada ao excesso de gordura porque "se cuida" e, depois de tentar todo tipo de dieta, remédio e spa, parece conformado. "Só fico incomodado quando tenho de ir ao alfaiate refazer o guarda-roupa", diz. Não é fácil chegar a essa atitude. A estudante de ciências sociais Juliana Calestine, 27 anos, 101 quilos, era cobrada pela mãe, pelo pai e pelo irmão – todos magros – e diz que só chegou a um acordo com seu tamanho depois de muito engorda-emagrece e anos de análise. "Acabei me assumindo e sou feliz assim", afirma. A maioria das pessoas, porém, continua tentando emagrecer. "Já fiz de tudo, mas sempre acabava recuperando o peso perdido. Quando cheguei aos 152 quilos, fiquei preocupado", relata o apresentador Fausto Silva, que partiu para a reeducação alimentar com exercícios e, nestes últimos quatro anos, emagreceu 30 quilos.

Campanha para crianças – A maioria dos gordos joga a culpa nos genes, como se ter pai ou mãe gordos justificasse os abusos à mesa. Não é bem assim. "A interferência do meio ambiente conta muito mais", informa o endocrinologista Amélio de Godoy, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. O cantor Ed Motta, 29 anos, 1,80 metro e 170 quilos, sobrinho do também obeso Tim Maia, está ciente disso. "Fui acostumado a comer demais desde criança. Meus pais enchiam meu prato, davam sobremesa, lanche, enfim, comiam muito e faziam todo mundo ser como eles. Posso ter os genes, mas sou gordo porque herdei o hábito e o prazer de comer." Na opinião unânime dos especialistas, o maior de todos os vilões, em se tratando de peso excessivo, é a mudança no estilo de vida. No início do século XX quase não existia carro, nem eletrodoméstico, nem controle remoto, e as pessoas se movimentavam bem mais. A qualidade da comida também era outra. Em 1974, a gordura representava 26% da alimentação do carioca. Em 1989 tinha pulado para 36%.

Batendo de frente com a sedução irresistível do hambúrguer, da pizza e do sofá diante da TV, diversos governos investem em pesquisas e campanhas educativas para barrar a disseminação da obesidade. A Inglaterra pensa em proibir a venda de fast food nas cantinas escolares. Cingapura, eterna campeã do rigor, decretou que criança gorda que não emagrecer também não vai passar de ano. O Brasil vai adotar um "selo verde" para alimentos saudáveis e lançar uma cartilha com um personagem da Turma da Mônica criado para abordar o assunto. "Nosso objetivo é evitar que as crianças aprendam a comer errado", diz Godoy. Não vai ser fácil. "Faço dieta, mas não deixo de ir ao McDonald's", teima a estudante Regina Célia Schenker Aguirre, 14 anos, 99 quilos. Sua mãe, Célia Schenker, 53, 79 quilos, entende a resistência da filha. "Sou preguiçosa e gosto de comer", diz.

                     
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